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(adaptação
de Thomas Bulfinch)
Eco era uma
linda ninfa, apaixonada pelas florestas e colinas, onde se
dedicava à caça. Era uma das preferidas de Diana e servia-lhe
de assistente nas perseguições. Mas eco tinha um defeito:
adorava falar e, conversando ou discutindo, queria ter sempre a
última palavra. Um dia Juno foi procurar o marido junto às
ninfas, pois tinha razões para temer que ele estivesse se
divertindo entre elas. Eco conseguiu deter a deusa com sua
conversa até que as ninfas pudessem fugir. Quando Juno
descobriu a trama, proferiu a seguinte sentença contra Eco:
"deveras abrir mão do uso da mesma língua com a qual me
enganastes, exceto para o único propósito que tanto te apraz -
retrucar. Continuarás tendo a última palavra, mas não
poderás falar primeiro:"
Enquanto o
lindo e jovem Narciso acompanhava uma caçada montanha acima, a
ninfa o avistou. Apaixonou-se por ele e seguiu seus passos. Ah,
como desejava dirigir-lhe a palavra nos tons mais suaves e
envolvê-lo com sua conversa! Mas isso estava fora do seu
alcance. Esperou impacientemente, que ele se dirigisse a ela. A
resposta, tinha-a pronta.
Um dia,
encontrando-se afastado dos companheiros e embrenhado na mata, o
jovem gritou: "Quem está aí?" Eco retrucou: "Aí."
Narciso procurou em volta, mas, não tendo encontrado ninguém,
chamou: "Venha." Como ninguém veio, Narciso tornou a
chamar: "Por que te esquivas de mim?" Eco repetiu a
pergunta. E o jovem disse:"Vamos juntar-nos um ano
outro." A donzela respondeu de todo o coração com as
mesmas palavras, e correu ao local, pronta para lançar-se num
abraço. Narciso recuou, exclamando: "Tire suas mãos de
mim! Preferiria morrer a deixar que me possuas!" "Me
possuas!" disse ela; mas foi em vão. Ele a deixou, e ela
foi esconder as mágoas nos recantos da floresta.
Desde então,
passou a viver em cavernas e nas escarpas das montanhas. Sua
forma se desfez com a tristeza e sua carne foi encolhendo até
desaparecer. Os ossos se transformaram em pedras e nada sobrou
além da voz. E assim, ela ainda retruca a quem quer que a
chame, e mantém o velho hábito de ter a última palavra.
A crueldade
demonstrada por Narciso nesse caso não foi seu único exemplo.
Ele afastou todas as outras ninfas, qual fizera com a pobre Eco.
Um dia, uma das donzelas que em vão tentara atraí-lo,
vaticinou contra ele: que sentisse um dia o que era amor e não
obtivesse uma afeição sequer em retorno. A deusa da vingança
escutou a imprecação e atendeu-a.
Havia uma
fonte límpida, cuja superfície era como a prata, à qual nunca
os pastores levavam seus rebanhos, nem a procuravam os cabritos
monteses ou qualquer outro animal da floresta; tampouco se
deteriorava com as folhas ou galhos caídos; mas a relva crescia
verdejante à sua volta, e as pedras a protegiam do sol. Ali
veio ter um dia o jovem, cansado da caçada, sentindo sede e
calor. Agachou-se para beber e viu a própria imagem na água;
pensou tratar-se de um belo espírito que habitava a fonte. Pôs-se
a admirar aqueles olhos brilhantes, aqueles cabelos ácidos em
cachos como os de Baco ou de Apolo, as maçãs do rosto
torneadas, e o colo poderoso, os lábios entreabertos e, acima
de tudo, o vigor da saúde e da força física. Apaixonou-se por
si próprio.
Aproximou
os lábios para beijar a imagem; meteu n'água os braços para
estreitá-la. O objeto amado fugiu-lhe ao contato, mas voltou após
alguns instantes e tornou a exercer o mesmo fascínio. Era
incapaz de afastar-se por vontade própria. Esquecer a comida e
o descanso e ficou pairando sobre a fonte, obcecado pela própria
imagem. Tentou conversar com aquele espírito: "Por que me
evitas, linda criatura? Meu rosto certamente não há de
causar-te repulsa. As ninfas me adoram, e tu próprio não me
olhas com indiferença. Quando estico meus braços em tua direção,
fazes o mesmo; e sorris para mim e respondes aos meus chamados
com igual zelo." Suas lágrimas caíram sobre a água,
distorcendo a imagem. Ao vê-la desfigurar-se, exclamou:
"Fica, eu te imploro! Deixa-me ao menos olhar para ti, já
que não te posso tocar." Com tais gestos e palavras, e
muitos outros mais, acalentou a chama que o consumia, até que
foi perdendo gradativamente a cor, o vigor e a beleza que tanto
encantara Eco. Mas a ninfa estava sempre por perto e, quando ele
exclamava "Ai de mim!", retrucava com as mesmas
palavras.
Narciso
definhou e acabou morrendo; e, ao passar pelo rio Estiges, sua
imagem debruçou-se sobre o convés para poder ver-se refletida
nas águas. Lamentaram-no as ninfas, especialmente as das águas;
e quando afligia-lhes o peito, Eco sentia a mesma aflição.
Prepararam-lhe uma pira e teriam cremado o corpo, mas não
conseguiram encontrá-lo; em seu lugar, uma flor, púrpura por
dentro, e cercada de pétalas brancas, que leva seu nome e
preserva a memória de Narciso.

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