MARIA ALICE ESTRELLA

 

 

 

Acalanto do Tempo 

 Avesso 

Festa 

 Fugaz 

 Locação 

 Não 

 

 

 

 

Acalanto do Tempo

 

Permite
que eu fique por perto
sem palavras, em silêncio
aconchegada no peito
da ternura descoberta.

O tempo caminhou muito
e está cansado de andar...

Na linhas que a vida tece
somos caminhos cruzados
nos entremeios do acaso
que rege o inesperado.

O tempo caminhou muito
e está cansado de andar...

Repousa
teu jeito menino
no ombro do meu carinho

Estende
tuas mãos vigorosas
na direção do horizonte

Conquista
a luz que ressurge
na claridade do céu

Viaja 
nos braços da noite
na quietude do sono

Deixa
que os sonhos embalem
a alegria desperta
sem pressa, na calmaria
do mútuo bom que acontece
no instante que comporta
a plenitude das horas
no infinito do abraço...

O tempo caminhou muito
e está cansado de andar...

Permite 
que eu te ame por inteiro
sem palavras, em silêncio
na intensidade do gesto,
acariciando o teu rosto
na imensidão de um celeiro,
que armazena colheitas
de risos e recompensas

...de um tempo que caminhou muito
e está cansado de andar...


 

 

 

 

Avesso

 

O avesso da chegada não é a partida, é a separação.
O avesso da presença não é a ausência, é a saudade.
O avesso da solidão não é a companhia, é a partilha.
O avesso do longe não é o perto, é o junto.
O avesso da luz não é a sombra, é o opaco.
O avesso do nunca não é o sempre, é o contínuo.
O avesso do provisório não é o duradouro, é o permanente.
O avesso da distância não é a proximidade, é constância.
O avesso da lágrima não é o riso, é a estiagem.
O avesso de mim não é a face no espelho, é o rosto transparente.
O avesso de mim não é a lembrança do que não fui, é a certeza do que serei...
O avesso de mim és tu, costurado nas dobras da minha alma...


 

 

 

 

Festa

 

Convidei o amor para cear comigo.
Cobrei entrada na porta do afeto;
virei a mesa do jantar da ternura;
quebrei os pratos do manjar de carinho;
espalhei cinzas no tapete da compreensão;
enxotei o gato da cadeira de promessas;
desfiz a festa da espera com impaciência;
sentei num canto do sofá da ausência
e fiquei só como uma casa vazia.

Não notei que, ao apagar das luzes,
um vulto vinha pela rua escura,
correndo muito

    para entregar-me rosas...

 

 

 

 

Fugaz



Teu vulto ficou preso na porta,
tua mala perdeu-se na rua sem saída,
teu trem partiu para nenhum lugar...
Foste deixando pedaços de alma 
por todos os caminhos
numa tentativa fugaz 
de perpetuar o vazio
da tua eterna ausência...
Viro a página do livro
e descubro um poema
nunca escrito
e sempre oportuno...
Apago a luz
e acaricio
a sombra da saudade
que, insistente,
deita ao meu lado
e suspira...


 

 

 

Locação

 

Não se alugam emoções,
nem o coração
está a disposição 
de cláusulas contratuais.
Se o teu amor é de aluguel,
coloca a tabuleta de aviso
antes que adentre pela tua alma
alguma outra alma interessada
em possuir teu âmago para sempre...

 

 

 

Não

 

O olhar do menino
cristalizou na vidraça 
e a chuva caiu
mansinha,
desmoronando sonhos.
O jogo de bola, não houve
e a pandorga ficou presa na mão.
Pobre menino!
Quando a vida diz: não!
Fica só o barulho
do coração,
quebrado
em caquinhos,
c
  a
    i
      n
        d
           o
no chão ...

 

 

 

 

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