NOVAS LETRAS - DOCES POETAS - SHASÇA

 

 

Cumpre a mim  apresentar o Shasça... tarefa fácil pela multiplicidade de sensações que ele me provoca... e  tarefa difícil, pela minha dificuldade em transformar em palavras essas sensações. Quando ele me enviou o primeiro poema, fiquei tentada a pedir autorização pra colocar aqui na página, mas tive receio e deixei... até que ele me ofereceu. Que alegria enorme! Então, quando comecei a página, perguntei que tipo de imagem poderia usar... alguma coisa que o identificasse, ele respondeu:  "um caleidoscópio"... estabanada, errei na primeira versão da página, ele me corrigiu e perdi o rumo... apaguei tudo! Agora estou me retratando pelo erro e tentando retomar a apresentação... cuidando pra não errar (muito) desta vez.

Esta página, certamente, vai mudar muito ainda...

 

Enviei a ele o poema A Cólera Divina de Adélia Prado e ele me respondeu assim:


A cólera divina 

       À cólera divina (para Lu)

Quando fui ferida,
       Por que fui ferido?
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma,
       seja lá por quem quer que tenha me sentido como merecedor
- ainda não sei -
       - e ainda não sei o porquê -
percebi que não morrera, após três dias,
       eu, que nunca morrerei,
ao rever pardais
       como os pardais
e moitinhas de trevo.
       e as moitinhas que à vida se atrevem.
Quando era jovem,
       Sempiternamente,
só estes passarinhos,
       junto a passarinhos
estas folhinhas bastavam
       e folhagens amazoatlânticas
para eu cantar louvores,
       desejo mais cânticos
dedicar óperas ao Rei.
       de quem se quer meu rei.
Mas um cachorro batido
       Um cachorro ferido,
demora um pouco pra latir,
       se solto, irá reagir,
a festejar seu dono
       sabedor que não há donos.
- ele, um bicho que não é gente -
       Plantas&bichos&gentes
tanto mais eu que posso perguntar:
       uníssonos a bradar:
por que razão me bates?
       não quero seu merthiolate!
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
       Assim, eu&pardais&vibrantes matas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
       formamos una cumulus.
Quem me feriu perdoe-me.
       Quem me feriu, sabe o porquê?

Adélia Prado
       Shasça
       Sambaqui, 02/07/02


pensei em colocar a história desse poema... mas acho melhor não... foi um presente do homem caleidoscópio pra mim e, ao mesmo tempo que tenho ciúmes, não posso deixar de me exibir (só um pouquinho)  e exibir um pouco mais do que vai no pensamento desse meu neguinho...

 

la bête dans la salle de la beauté

cores, luzes
brilhos, reflexos 
nas pessoas e objetos 
movimentos suaves
na sala dos lustres

cores, luzes
brilhos reflexos
na pessoa projeto
movimentos agudos
na caverna rupestre

seduzido pelos lustres
o troglodita ousa
à outra selva

já na ante-sala
garras nunca aparadas
abrem sulcos no persa
num movimento falta-lhe o chão
apoia-se no aquário
no persa
outros esbugalhados
juntam-se aos seus num dueto:
e agora?

na cativante beleza
também torturante da sala
não-estátua
quer sentir por onde
ir/voltar entrar/sair

mas não é nada disso
só tou dando voltas
em busca de maneira e palavras
pra te dizer 
como tou triste comigo

Sambaqui, 02/07/02

 

Viva Shasça!

 

 

 

 

 SHASÇA fala...

 

 

 

 

JARDIM

 

 

Sabe, como as outras, que desfruta do mais

belo jardim e que o bondoso

jardineiro jamais  deixaria

alguém arrancar-lhe uma pétala sequer.

 

O canteiro fica em frente à janela da me-

nina mais  romântica da aldeia.

 

Seu mais profundo desejo é ser levada para o pequenino

vaso de porcelana branca

com passarinhos azuis e amarelos posto

sobre o criado mudo,

ao lado da  cama, cujos  lençóis

exalam as mais  finas fragrâncias

de colônia e platônicas paixões arrebatadoras.

Ah... aquele brilho que suas pupilas irradiavam

quando, ao chegar do colégio,

jogava-se sobre a cama,

abraçada à almofada, em meio a

murmúrios e suspiros profundos.

 

Tudo o que quer nesta  vida é trocar

a segurança das mãos do velhinho

e os beijos profissionais das abelhas e borbole-

tas pelo suave roçar daque-

la pele aveludada ou, pelo

menos, um simples olhar.

 

Todas as  outras, como soe acontecer, repreendem-na,

meneando suas corolas ao vento,

por esta inconseqüência  adolescente

de sonhar

em abandonar a terra fértil do canteiro,

o regador infalível, e etc..

 

No entanto, lá no íntimo, todas  sabem que

a vida é uma

só.

 

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florais de mar

  

rebanho

em florespumas que brotam aqui e acolá nas cristas fagueiras como meninos no morro do bom brinquedo o coração plenamente consciente de suas dificuldades em existir porém não menos feliz por saber a vida como uma farta mesa posta em festa para orixás e ousar ter prazer em se lambuzar no banquete oferecido para espanto pavor e óbvia repreeeeensão do

rebanho

rebanho

o corpo incapaz do sacrifício de fechar-se a este eterno sussurrar a prencher todas as épocas e esta janela semprevivamente emoldurada onde repentinas quilhas abrem fendas na pseudocalma superfície que guarda a fonte do tudo como se imenso olho verde acenasse a possibilidade de vislumbar a maravilha da vida em relances imperceptíveis ao

rebanho

rebanho

imersamente flutuantes coração e mente como ave a saltar para o primeiro vôo todos os incontáveis dias da sua existência de ser parte e ser o todo invisível aos que preferem doces promessas de alívio de incensos e essências de fugidios magos modernos que convenientemente interpretam dolorosos desejos foscos frutos da embriaguez do

rebanho

rebanho

me todo dia em flores sons e cores diferentemente igual ao primeiro e a todos os outros banhos de benzeção e carnaval sacra e profanamente em marés que anseio desde as abissais minas minha fonte minha sina como tudo o que há

em florais de mar

me banho

 

sambaqui, maio/01

 

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MARINA II  

 

       a maré

vem e...

              vai!

        a maré

              vai e...

vem!

        a maré

 

o cais:

- vais?

 

                   fui!

 

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AVIDAMUSASUMADIVA

 

é feito UM camminhar

de dentro pra fora

até entrar de novo

e sair UM outro

do outro lado

que é este mesmo

que chama depois

mas que vem antes

assim como cada fim

é o princípio de outro

não há paradas

saídas entradas

há um caminho

muda-se como se caminha

mas tudo caminha

assim como o amanhã de anteontem

é o ontem de hoje

que é o ontem de amanhã

 

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A FRATERNIDADE É...

 

ajeitam-se

no caleidoscópio

à vontade do momento

praias

montanhas

bares

sargetas

bancos de praças

latas de lixos

hospícios

cárceres

e

cemitérios

 

luzem

multicores

     formes

sorrisos

lágrimas

porres

porradas

fazendas d’além mar

e

mulambos

 

a fraternidade

dos out-doors

dos programas de domingo

das novelas das oito

dos bilhetes por baixo

class="MsoNormal">                   da mesa

dos tapinhas nas costas

dos sorrisos adestrados

das filas prá sopa

do tostão-biombo ante os aleijões

           das calçadas do centro

do glamour dos banquetes das

                  primeiras damas

do pratim bunitim da campanha do

                            betim

a fraternidade da onda

 

e qual é a cor da onda?

 

há também aquela

perigosa ao tráfico dos shoppings

       e às consciências neo-porra

das cadeiras na calçada

da porta aberta

                - entra!

há ainda uma outra

obsoleta

que ainda se vê no Prado

a fraternidade do arrastão

nas areias ainda sem dono

tão distantes de um seguro porto

                          qualquer

e aonde a cor da onda ainda é verde

 

a fraternidade

é da cor do olhar debruçado sobre

                   o caleidoscópio

mas o caleidoscópio

não cabe num tubo

 

bonita

é

a fraternidade é bonita

 

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CUJA & CUJO



dito e dita nasceram
(há quem diga
que preto não nasce
surge)

Porém insisto
dita e dito
nasceram num desses morros do macaco
numa dessas favelas por aí
onde poucos fartos despejam
o que muitos ditos e ditas disputam
com as moscas

como escaparam à natural seleção social
dito e dita cresceram
cada qual no seu barraco
unidos na fome
no lixo
e no espanto de estar vivo

dito
enquanto crescia
sonhava ser cantor
jogador ...or ...or
não deu
foi fazer avião
devido lugar de ditos
dita
enquanto crescia
sonhava ser cantora
professora ...ora ...ora
não deu
foi ser doméstica
devido lugar de ditas


o que dito e dita sonhavam
era puro delírio
eram pobres e pretos
e se pobre branco já não dá sorte
imgine preto pobre
(rico preto
ainda fecha os olhos
preto pobre pesadela)

dito era sempre o primeiro a ser preso
sempre pelo que era
nunca pelo que fez
dita perdeu a virgindade
(que inocência depende
de se ter alma branca)
junto com a do patrãozinho e a dos seus
amiguinhos
a patroa
com a dignidade ferida
botou-lhe porta afora
na rua outra dita

foi na subida do morro
como diz o samba
que dito viu dita
dita viu dito
sorriram-se
gostaram-se
e como pouca desgraça é bobagem
resolveram somar as suas
e dividir num barraco
as ilusões
as barrigas rajadas
as doenças venéreas
tudo a que os ditos e ditas
têm direito

todos os dias
dito bebia e batia em dita
dita fugia e traia dito
dito batia e não entendia
porque ainda sofria
dita traia e não entendia
porque ainda sofria

nem dito nem dita
em sua via crucis percebiam
que o seu sofrer convinha ao bacana
que do seu duplex & whisky & sol
cuspia no mesmo morro fodido
onde mandava buscar sua alegria
nem dita nem dito
em sua angústia compreendiam
sua maldita sina
lá no seu zinco esgoto e só
tão perto e tão longe
debruçados sobre a casa grande
os culhões
enredados em humildade e esperança

e foi depois de mais uma sessão
de porre e porrada
que dito enfrentou-se
seguindo a lição do avô:
pendurou-se na cumeeira
e lá ficou
dançando como um frango
com aquele olhar de quem trucou o zape
e foi depois de passar a acreditar na
existência do mal 
que dita entregou-se
ao evangelho segundo qualquer paletó
aproveitando uma promoção no dízimo
oferecido por uma nova igreja lá do
centro

(o disc-jockey era irresistível:
"não percam
um pecado é três
três é dez")

corre lá no morro que a tragédia virou
um samba enredo mas este foi
desclassificado na escola
por excesso de estranheza
das gentes e escassez
de alegoria adequada

Shasça

 

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“All Along the Watchtower”

         (... mas, assim mesmo, eu vou correndo

         só pra ver...)

 

... e lá vem o costume cristão de reclamar do viver:

“- que merda de chuva!”

(quando o sol aparece, apenas trocam chuva por sol

quando venta...)

“- que dia deprimente!”

                  (onde é que está, mesmo, a depressão?)

 

À minha janela,

nada vejo do eterno verde.

Porém, sei-o.

O nada está no alcançar de minhas retinas.

Sinto-o em meu concreto espírito,

parte que estou da extensão de tudo

                  (no palco à minha volta,

o balé da ramagem feliz

e seu saltitantes cantores

nos oferendam esta certeza vital).

 

Pra chorar por um dia assim,

é preciso ter lágrima já pronta.

 

Sambaqui, 31/10/02

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“- Hello

                                        How are you?”

                                                 (Telephone Line, E.L.O.)

  

ao quê a fala é tão necessária?

esse impróprio uso da língua

instrumento pelos deuses destinado à paixão

function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

font-size: 10.0pt; font-family: Tahoma">a fala só é necessária ao desentendimento e/ou à mentira

 

o que pode a língua

bailarina que até engana mas não se

quando a percorrer cartilaginosas coxias e bastidores

                                                              de pelo e músculo

corisco estalando no trigal que ondeia e vibra a cada

 

a fala serve também à razão

o louva-a-deus não cogita

logo não evita

existe

 

PS: Na verdade eu queria ao menos escutar teu oi! mas não

te liguei porque o que quero mesmo é te navegar mas o mar

está tão distante que então quase te liguei mas também não

sei pra onde nem se deveria e foi então que eu... estás me

sentindo?

HEIN?!!!

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ouro preto, 29/08/03

 

Hans

minha mãe acaba de dizer que tu partisse

porém, inteiro

como vivesse

e infernizasse os tolos ruminantes de rola murcha e bunda mole

 

vai Hans!

meta bala, agora

neste bando de bundas do além

 

vejo um Dionísio da cabeça chata

(lembra aquela do benzim pra ir à feira buscar melancia?)

a cruzar o Hades

trajando uma camisa emprestada pelo Jô

pro baile do cosmopolitano

 

tou longe perto sozim e dejunto

neste botequim de o.p.

nos banquim vazi

meus irmãos daqui e do além

os verdadeiros

gritam truuuuco, ladrão dos meus tentos!

 

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PEDRAS

 

Pedra,

minha pedra, tua

pedra.

Pedra,

tua pedra, minha

pedra.

 

Pedra,

da

/

à

pedra

viemos.

 

De pedra,

às vezes, é a escolha.

Da pedra,

não há, às vezes, como lançar-se.

Da pedra,

não se quer, às vezes, largar-se.

À pedra

às vezes, é a escolha.

 

1.         Há dureza

sob a pele de pedra; firmeza.

No coração da pedra, a fortaleza:

pedra sobre pedra: represa:

pedra entre pedras: Presa.

 

2.         You know,

i’m a rolling insane; soul

like a rolling stone. Ícaro,

happy, rumo à pira, vôo

 

3.         Pedras, tantas

na ravina reunidas: resplan

decente limbo do sonhar, enquanto

Sísifo arde montanha abaixo, atento

à vida que flui montanha

acima

 

Shasça, Sambaqui, 04/07/01

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SEM TI

 

Minha nega

fico assim

outro barco preso ao léu

e nem mesmo o turbilhão do

co

move-me

 

a um fauno

as montanhas estendem-se pelo horizonte

como se uma mulher nua

abundam curvas...

a fitar as tuas

há um fauno

 

a quilha tesa

meu catre é este mar

que anseia a tempestade

function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

-size: 9.0pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt; font-family: Tahoma"> 

ainda assim

sem ti

e por isto mesmo

beijo-te

 

aos frouxos de sangue e desejo

à paz  

Floripa/Lagoa, 17/10/03, 17:40-18:12

 

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Todos os poemas desta página são da autoria de Shasça

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Última revisão: segunda-feira, 01 de dezembro de 2003