Este homem e esta mulher nunca chegaram a ser apresentados ao mundo. Apaixonaram-se ao primeiro encontro, em Siena, na Piazza del Campo. Recordavam-se apenas de um excesso de luz. Um sopro. Dois perfumes feitos da mesma essência.
Ela ouvia-o e não concebia que as palavras pudessem ter existido antes daquela voz. Riam-se, e ele descobria que o riso dela espalhava,
estrelas pela noite da Toscânia. Diziam coisas sem nexo. Nos braços dela, ele era antigo como uma criança. Nos braços dele, ela sentia-se resplandecente como o mármore. Juntos, não precisavam de imitar ninguém. O coração da terra batia ao ritmo fundo daqueles dois perfumes de uma só alma.
Nada sabiam um do outro. Passado e futuro. Apenas a cor dos olhos, a palidez da pele, o cheiro a luar e a noites mal dormidas. Uniram-se ao som da guitarra cigana tocada com todo o amor e toda a dor do mundo. Tocaram-se, primeiro mansamente, depois com uma pressa desusada, própria dos condenados à ternura. E o que ali aconteceu, junto à Ponte Rossa, saltou muros e fronteiras, à décima segunda balada de um qualquer relógio de família, embalou os astros, esmagou hipocrisias...
Quando os dois, feitos uma gaivota, se deram numa barca de águas felizes, misturaram-se os seus cheiros, sem perguntas, sem razões, e juntos voaram no dorso do mais branco cisne nascido no reino da Toscânia. Ele acendeu o último cigarro sobre o peito da mulher de coração vendado, sem nome, em fogo. Esta penteou os seus cabelos com água de seda e entrou na sétima casa da Felicidade, erigida naquele momento, sem aviso, sem esperar qualquer convite.
E no encontro daqueles corpos, sôfregos e rasgados de tantas emoções vividas fora de horas, evocaram-se tantas paixões por arder, tantas cinzas por apagar, feitas do sal da história sem fim. E foram tantas, foram breves de tão longas, noites imensas, nomes de lenda, amantes interrompidos...
Um por um, leram esses sinais e mascararam-se daqueles heróis e heroínas que fizeram do amor o seu ceptro e da ternura o seu devaneio de vivo corpo.
No oráculo de Delfos, estranhamente iluminado, ele, feito Othello, ouviu o derradeiro suspiro de Desdémona e, miraculosamente, manchou de sangue os lençóis frios da morte.
Sob os ulmeiros escorrendo traição, ele, Eugene O'Neil conheceu Louise Bryant e não conseguiu afastar os olhos de John Reed.
Nas escadas do palácio que Rasputine habitou, ele, Lord Byron, mortificou Lady Caroline e dançou, freneticamente, um último charleston.
Na última galera que cruzou o Nilo, ele, Marco António entregou-se a Cleópatra e amou os lábios da rainha que nunca retirou o colar de pérolas.
Junto à prisão de Leninegrado, ela, Lara, perdeu Jivago e foi ver os dez dias que abalaram o mundo. No pub mais imundo da "big apple", ele, Oliver, chorou o último sorriso de Jenny e reviveu a sua mais linda história de amor.
Sobre o leito de morte do filho de Scarlet O'Hara, ela, Lady Chatterly, deitou, ritualmente, o Amante e ouviu um surdo som em Hiroshima.
Num quarto de hotel à belle époque, ela, Sofia, escolheu a loucura de Nathan e, pateticamente, recordou Auschwitz.
Junto às ruínas de Stonehegen, ele, Don José, dedicou o toureio de Julieta com esponjas de púrpura e, explodiu, sem aviso, em mil e um pedaços.
No rio virgem da floresta negra, ele, Paul, penteou os cabelos de Virginie com pétalas de rosas e desejou, ardentemente, ali lançar âncoras à vida.
Voando num secreto lago de cisnes, ele, alado Rodolfo, deixou o suor nas margens do Limbo e beijou Giselle no Templo das Nuvens. Escrevendo numa folha de papiro vermelho, ele, Sartre, reconheceu Simone em Maio de 1968 e foi enfrentar os dragões com as balas das estrofes.
No castelo mais misterioso da Transilvânia, ele, Conde Drácula, limpou, em agonia, o sangue de Elisabeta e atravessou os oceanos do tempo para expiar seu pecado. Quando chegou a hora das garças, aquela em que todos os Arlequins tiram as suas máscaras, ficaram, deitados no leito manchado de tantos amantes, um homem e uma mulher, embebidos num silêncio murado de ilhas encantadas, num mar de sargaços em noite de lua mais que cheia. Teimosamente, persistia o odor a madressilva e a junquilhos. Dentro deles. Pelos interstícios dos seus poros, à beira da purificação mais profana - aquela que vem do Amor.
Naquela praça inquieta e em forma de concha, nasceram os anjos, quase do suor, feito orvalho, dos nossos heróis, e soltaram-se os cavalos mais brancos do povoado, num trote louco e perfumado.
Em Siena. Enquanto as cotovias dormiam. De madrugada.
Com a subtileza dos poetas, ele banhou-se nas lágrimas dela. Próprias de quem alberga a tristeza de tanto amar. Próprias de quem sabe que, um dia, aquilo a que chama seu lhe será roubado. Tocou-lhe no ombro. Quase no coração. Muniu-se de um frasco de alabastro e, dentro dele, guardou essas águas dos olhos dela, beijando-lhe suavemente a face fria e dolente. Juntou-lhe três gotas do seu suor de Adão, depois de mais uma noite de paixão. Sorriu. Era ainda madrugada.
Agarrou um torrão de terra castanha e toscana e dentro do alvo frasco também a colocou. Misturou essa mágica poção e antes de tapar o frasco sentiu um odor inaudito e maravilhoso, um PERFUME feito de pós de verdade, de epidermes e de cansaços, de esperas e de encontros, de sangue e de desencontros, de glórias e de desencantos... Um perfume feito do excesso de luz que emergiu da primeira carícia. Do sopro daquele dia. Do riso vindo da terra dos deuses homens que foram capazes de amar e que só por isso serão perdoados.
Ela assistiu a esse ritual com a languidez das fêmeas. Sorveu esse perfume como se não houvesse nenhum outro nas redondezas.
Tocou nos olhos dele. Mansamente. E, nessa altura, viu as tintas aguadas do pintor, os relógios distorcidos, esqueletos de árvores, um Cristo em forma de cruz, uma ceia divina, bigodes aristocráticos, saleros e flamencos, meninas ensolaradas e mulheres indefinidas, vermelhos rubi, azuis irreais e, sobretudo, milhares de fotografias suas, surrealistas.
helénicas...
Deu-lhe um nome. Próprio. Soube-lhe, então, os gestos, os sinais particulares, a língua. Só de lhe olhar na íris, só de lhe sentir o cheiro. Como resposta, ele acariciou-lhe os caracóis e sussurrou o nome dela. Ao acaso. Como uma balada. E de novo se fez sentir um perfume toscano, temperado pelas planícies andaluzas e pelas estepes moscovitas.
Nunca me deixes, SALVADOR.
E, imediata, a voz dele fez-se ouvir, mais perfumada que nunca.
- GALA, meu amor!
Corria o ano de 1929.
Em Siena, no reino da Toscânia.
Era ainda madrugada...